O Mestre (Santo Agostinho)

Parte I - As palavras como signos. Não podemos mostrar coisa alguma sem sinal. Mas, afinal, que valor tem o sinal para a linguagem? Ou melhor, que é linguagem? Pelo que entendi no diálogo de Santo Agostinho com o filho, Adeodato, a linguagem consiste em expressar exteriormente um sinal da vontade, por meio de sons bem articulados. E os sinais, que são, por sua vez? Sinais são palavras, as quais usamos para perguntar, responder, ensinar e indicar. O que é significado pelas palavras, me parece, se distingue entre, o que não pode ser mostrado, e o que pode ser mostrado com o dedo, chamemos incorpóreo a um, como o som, o cheiro, o calor, etc; e corpóreo a outro, como parede, janela, casa, etc. Não é outra coisa senão o sinal da coisa real. Por exemplo, ao falar a palavra "cadeira", o som que sai da minha boca, sinaliza uma coisa existente. Não obstante, a coisa existente é anterior ao sinal. Os sinais são vocalizados porque a coisa existe, e não o contrário. Devemos tomar como princípio esta verdade. Santo Agostinho parece dizer, que com a linguagem não queremos outra coisa senão ensinar, ou a nós mesmos, ou a outros, e esta parece ser a finalidade, primária e principal, da linguagem. Se a linguagem tem esta finalidade, tudo o mais que fazemos com ela, de certa forma, se ordena a este fim, mesmo quem canta, por prazer, pois, embora busque com isso o prazer, este está subordinado àquele fim, o ensino, do contrário não conseguiríamos sentir nenhum prazer ao recordar uma música ou poesia, sem que fôssemos antes, informado sobre o significado das palavras, pois, se as palavras, ao serem cantadas ou recitadas, nos fizesse lembrar de algo que nos desagrada, não sentiríamos nenhum prazer em recordá-las.

Se as palavras não possuem fins em si mesmas, mas são destinadas ao ensino, o que fazemos com ela, é responsabilidade nossa. Saber usá-las para o bem, para aumentar a grandeza alheia, para tornar a verdade conhecida, está ao nosso poder. Mas usar bem a linguagem, requer certa perícia e habilidade, principalmente quando estamos na empreitada de ensinar outros, pois, ensinar a nós mesmos, não é uma tarefa tão fácil, mas ensinar a quem não sabe onde queremos chegar, é mais difícil ainda. Podemos deduzir que, aquele que ensina, já tem em si aquilo que pretende ensinar, pois, sendo a linguagem certo dom, não podemos dar aquilo que não temos. Só pessoas dementes usam a linguagem sem nenhum propósito, sem ter em vista algum fim útil, falando coisas sem ordem, nexo e articulação. A princípio, aprendemos, mas depois o que fazemos com o que aprendemos, senão ensinar a nós mesmos? Por exemplo, quando lemos um livro, nos colocamos na atitude de quem busca aprender, e não ensinar, mas, quando assimilamos o que lemos, instruímos a nós mesmos, e para tal nos servimos da memória. É como se tomássemos posse do ensino alheio, para ensinarmos a nós mesmos.

Se as palavras são sinais da vontade, o que devemos fazer, antes de julgar as palavras, quando ditas, é perguntar: O que você quer ao me dizer isso? Ou, o que deseja com isso? Certamente deseja algo, ao se exprimir daquele modo, ainda que o modo como se exprime, não esteja de acordo com o que queremos. Um protestante usa a palavra "bíblia" para significar algo que ele deseja, o católico a usa, para significar o que deseja. O objeto da vontade, não é o bem? Mas, quantos bens há? Assim, o protestante se serve das mesmas palavras dos católicos, que estão na bíblia, só que, ambos tem em vista, fins diversificados, pois o bem deste está em exaltar a igreja católica e tornar o nome de Jesus conhecido, e o bem daquele outro, em mostrar que a igreja católica está errada e não deveria ser a única igreja de Cristo.