
Se as palavras não possuem fins em si mesmas, mas são destinadas ao ensino, o que fazemos com ela, é responsabilidade nossa. Saber usá-las para o bem, para aumentar a grandeza alheia, para tornar a verdade conhecida, está ao nosso poder. Mas usar bem a linguagem, requer certa perícia e habilidade, principalmente quando estamos na empreitada de ensinar outros, pois, ensinar a nós mesmos, não é uma tarefa tão fácil, mas ensinar a quem não sabe onde queremos chegar, é mais difícil ainda. Podemos deduzir que, aquele que ensina, já tem em si aquilo que pretende ensinar, pois, sendo a linguagem certo dom, não podemos dar aquilo que não temos. Só pessoas dementes usam a linguagem sem nenhum propósito, sem ter em vista algum fim útil, falando coisas sem ordem, nexo e articulação. A princípio, aprendemos, mas depois o que fazemos com o que aprendemos, senão ensinar a nós mesmos? Por exemplo, quando lemos um livro, nos colocamos na atitude de quem busca aprender, e não ensinar, mas, quando assimilamos o que lemos, instruímos a nós mesmos, e para tal nos servimos da memória. É como se tomássemos posse do ensino alheio, para ensinarmos a nós mesmos.
Se as palavras são sinais da vontade, o que devemos fazer, antes de julgar as palavras, quando ditas, é perguntar: O que você quer ao me dizer isso? Ou, o que deseja com isso? Certamente deseja algo, ao se exprimir daquele modo, ainda que o modo como se exprime, não esteja de acordo com o que queremos. Um protestante usa a palavra "bíblia" para significar algo que ele deseja, o católico a usa, para significar o que deseja. O objeto da vontade, não é o bem? Mas, quantos bens há? Assim, o protestante se serve das mesmas palavras dos católicos, que estão na bíblia, só que, ambos tem em vista, fins diversificados, pois o bem deste está em exaltar a igreja católica e tornar o nome de Jesus conhecido, e o bem daquele outro, em mostrar que a igreja católica está errada e não deveria ser a única igreja de Cristo.