O belo no sofrimento. Há beleza no trabalhador que regressa a casa surrado e desalinhado, mas com a alegria de ter ganho o pão para os seus filhos. Há uma beleza estupenda na comunhão da família reunida ao redor da mesa e no pão partilhado com generosidade, ainda que a mesa seja muito pobre. Há beleza na esposa mal penteada e já um pouco idosa, que continua a cuidar do seu marido doente, para além das suas forças e da própria saúde. Embora já esteja distante a lua de mel, há beleza na fidelidade dos casais que se amam no outono da vida, naqueles velhinhos que caminham de mãos dadas. Há beleza, para além da aparência ou da estética imposta pela moda, em cada homem e cada mulher que vive com amor a sua vocação pessoal, no serviço desinteressado à comunidade, à pátria, no trabalho generoso a bem da felicidade da família, comprometidos no árduo trabalho, anônimo e gratuito, de restabelecer a amizade social. Descobrir, mostrar e realçar esta beleza, que lembra a de Cristo na cruz, é colocar as bases da verdadeira solidariedade social e da cultura do encontro.
Em um nível de espiritualidade mais profunda, São Francisco, exemplo de santidade, andava com Deus pelo seu voto de pobreza, o desapego aos bens materiais, as chagas agonizantes, as humilhações que sofria durante as peregrinações, tudo isto constituía a verdadeira alegria; a verdadeira beleza divina por trás desses sofrimentos terrenos.
Parte I - As palavras como signos. Não podemos mostrar coisa alguma sem sinal. Mas, afinal, que valor tem o sinal para a linguagem? Ou melhor, que é linguagem? Pelo que entendi no diálogo de Santo Agostinho com o filho, Adeodato, a linguagem consiste em expressar exteriormente um sinal da vontade, por meio de sons bem articulados. E os sinais, que são, por sua vez? Sinais são palavras, as quais usamos para perguntar, responder, ensinar e indicar. O que é significado pelas palavras, me parece, se distingue entre, o que não pode ser mostrado, e o que pode ser mostrado com o dedo, chamemos incorpóreo a um, como o som, o cheiro, o calor, etc; e corpóreo a outro, como parede, janela, casa, etc. Não é outra coisa senão o sinal da coisa real. Por exemplo, ao falar a palavra "cadeira", o som que sai da minha boca, sinaliza uma coisa existente. Não obstante, a coisa existente é anterior ao sinal. Os sinais são vocalizados porque a coisa existe, e não o contrário. Devemos tomar como princípio esta verdade. Santo Agostinho parece dizer, que com a linguagem não queremos outra coisa senão ensinar, ou a nós mesmos, ou a outros, e esta parece ser a finalidade, primária e principal, da linguagem. Se a linguagem tem esta finalidade, tudo o mais que fazemos com ela, de certa forma, se ordena a este fim, mesmo quem canta, por prazer, pois, embora busque com isso o prazer, este está subordinado àquele fim, o ensino, do contrário não conseguiríamos sentir nenhum prazer ao recordar uma música ou poesia, sem que fôssemos antes, informado sobre o significado das palavras, pois, se as palavras, ao serem cantadas ou recitadas, nos fizesse lembrar de algo que nos desagrada, não sentiríamos nenhum prazer em recordá-las.
Se as palavras não possuem fins em si mesmas, mas são destinadas ao ensino, o que fazemos com ela, é responsabilidade nossa. Saber usá-las para o bem, para aumentar a grandeza alheia, para tornar a verdade conhecida, está ao nosso poder. Mas usar bem a linguagem, requer certa perícia e habilidade, principalmente quando estamos na empreitada de ensinar outros, pois, ensinar a nós mesmos, não é uma tarefa tão fácil, mas ensinar a quem não sabe onde queremos chegar, é mais difícil ainda. Podemos deduzir que, aquele que ensina, já tem em si aquilo que pretende ensinar, pois, sendo a linguagem certo dom, não podemos dar aquilo que não temos. Só pessoas dementes usam a linguagem sem nenhum propósito, sem ter em vista algum fim útil, falando coisas sem ordem, nexo e articulação. A princípio, aprendemos, mas depois o que fazemos com o que aprendemos, senão ensinar a nós mesmos? Por exemplo, quando lemos um livro, nos colocamos na atitude de quem busca aprender, e não ensinar, mas, quando assimilamos o que lemos, instruímos a nós mesmos, e para tal nos servimos da memória. É como se tomássemos posse do ensino alheio, para ensinarmos a nós mesmos.
Se as palavras são sinais da vontade, o que devemos fazer, antes de julgar as palavras, quando ditas, é perguntar: O que você quer ao me dizer isso? Ou, o que deseja com isso? Certamente deseja algo, ao se exprimir daquele modo, ainda que o modo como se exprime, não esteja de acordo com o que queremos. Um protestante usa a palavra "bíblia" para significar algo que ele deseja, o católico a usa, para significar o que deseja. O objeto da vontade, não é o bem? Mas, quantos bens há? Assim, o protestante se serve das mesmas palavras dos católicos, que estão na bíblia, só que, ambos tem em vista, fins diversificados, pois o bem deste está em exaltar a igreja católica e tornar o nome de Jesus conhecido, e o bem daquele outro, em mostrar que a igreja católica está errada e não deveria ser a única igreja de Cristo.